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O Artista

Por João Humberto Martorelli

Temo sofrer de estresse institucional: não suportaria acompanhar um a um os votos dos Ministros do Supremo Tribunal Federal que decidiam sobre as atribuições do CNJ. Minha geração viveu muitos estresses e as circunstâncias daquele julgamento assemelhavam-se aos dramas da distensão, à campanha das Diretas-Já, aos protestos dos caras pintadas contra Collor, um ponto de inflexão da sociedade. Para os que fazemos as carreiras jurídicas, e depositamos nas mudanças do Poder Judiciário todas as expectativas de avanços democráticos e sociais, retroceder nas competências originárias do CNJ seria algo terrível. Contudo, eu nada mais poderia fazer, já escrevera, já sofrera retaliações, não estava em minhas mãos.

Por isso, naquela quinta-feira, cruzei os dedos e fui ao cinema. O Artista é um filme sobre o cinema, a glória, a decadência, o amor. George Valentim, em notável interpretação de Jean Dujardin, é o grande astro do cinema mudo que resiste ao cinema falado e ignora a nova forma da arte, sendo desprezado pela indústria, pelos pares e pelo público. É salvo pelo amor de uma mulher. A película em preto-e-branco, mas um preto-e-branco moderno liso, luminoso, sem interferências, que parece chamar a atenção para a existência das cores e que nos transporta à época sem nos tirar de nosso tempo, as bocas dos atores abrindo-se e fechando-se sem a emissão de qualquer som, a pretender a delineação sublinhada da interpretação, e a ausência do som mesmo a significar as várias camadas da arte. A velocidade do rolo - ora, não temos rolo, a película é digital -, a normal velocidade dos fatos e dos acontecimentos é quase um contraponto à pretensão de fazer um filme mudo.

A música de orquestra que se inicia no filme dentro do filme e que depois passa a acompanhar o próprio movimento do filme atual. A cena em que ela se confronta com o cabide onde está pendurado o paletó do astro e, introduzindo a própria mão em uma de suas mangas, representa a mão dele em seu corpo, no mais lascivo e lírico devaneio, impagável. Depois, o dilema moral para ela, a ascensão como atriz enquanto ele cai em franca decadência. O filme foi inspirado na vida de John Gilbert, astro do cinema mudo que não se adaptou ao cinema falado e mergulhou na decadência, entregando-se à bebida e morrendo ainda jovem. Nosso astro, diversamente, escapa à morte e renova-se na arte com a ajuda da mão que abraçara seu paletó.

A arte continua, o som finalmente é encontrado na dimensão correta. Saio aliviado do cinema, a sensação é de restauração, contentamento interior, recompensa, esperança. E já não sei se por efeito do glamour da maravilhosa dança final, ou porque no meu blackberry, ao som dos acordes da música, no mesmo instante em que terminava o filme, entrava a notícia de que o Supremo decidira manter a competência investigativa originária do CNJ.
 



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